Este livro, por exemplo, eu creio que o escrevi por causa de Nova Iorque
Na introdução de 2017, Caetano cita um trecho do próprio livro de 1997 que o crítico contracultural Luiz Carlos Maciel comentou em livro de seus escritos reunidos. Maciel teria notado o “salto maluco” que Caetano dá no texto, indo “depois de um parágrafo que vai fundo na sutileza das movimentações internas da cultura brasileira para a criação da bossa nova” para começar o seguinte com a frase “este livro, por exemplo, eu creio que o escrevi por causa de Nova Iorque”.
Caetano comenta a própria frase com distância irônica. Reconhece que estava “ecoando o título do nosso primeiro show no Vila Velha, Nós, por exemplo, e equiparando diferentes motivações misteriosas que geram atos interessantes”. E acrescenta: “De fato atribuo um poder mágico a Nova York (que eu ainda preferia escrever Iorque, antes de uma conversa pública que tive com o grande tradutor Sergio Flaksman), mas não há, em todo este livro, nada que se assemelhe, estilística ou logicamente, àquele salto”.
A passagem é exemplar do procedimento metaliterário que Caetano adota na edição comemorativa: ele lê o autor de 1997 como leitor outro, marca os “saltos malucos”, as digressões, e expõe o que ele próprio mudaria. Nova York comparece em Verdade Tropical como o lugar em que Caetano percebeu retroativamente o sentido do tropicalismo brasileiro — o exilado de Londres encontrou em Nova York o ângulo a partir do qual narrar a Bahia.
