Cana doce, Santo Amaro / Gosto muito raro
A canção fecha o lado A de Cinema Transcendental (1979), disco gravado por Caetano com A Outra Banda da Terra, conjunto de músicos baianos com quem trabalhava no fim dos anos 1970. O título refere-se à companhia de bondes que operava em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, cidade onde Caetano nasceu em 1942 e onde viveu até a juventude.
O verso “cana doce, Santo Amaro / gosto muito raro” condensa a economia do Recôncavo Baiano em duas linhas. Santo Amaro é cidade canavieira — engenhos antigos, monocultura, escravidão como base material da fundação. Caetano não lava o passado, mas extrai do “gosto” da cana o vínculo afetivo que sustenta a memória da infância. A peça é, simultaneamente, retrato de cidade e biografia tangencial: descreve o lugar, sem dizer “eu”, e o eu se inscreve por implicação.
A canção é parte de uma série, no repertório de Caetano, de retornos a Santo Amaro como matriz — “Tonada de Luna Llena” (1980), “Atrás do Trio Elétrico” (1969), referências esparsas em Verdade Tropical. O bonde de “Trilhos Urbanos” não é só transporte: é o aparelho ferroviário que ligava o engenho ao porto, e que Caetano transforma em metáfora do trânsito entre o passado canavieiro e a cidade ainda em formação.
