Eu vi uma tigresa toda nua na rua
A canção integra Bicho (1977), disco gravado por Caetano depois de uma temporada de um mês com Gilberto Gil em Lagos, Nigéria, e que carrega marcas rítmicas e timbrísticas da música jùjú e fela kuti. A peça nasceu, segundo Caetano, de uma série de TV sobre meninos indianos que andavam com elefantes e encontravam um menino selvagem com reações felinas. Ele tomou a palavra “tigresa” (feminino do tigre em português) e construiu a letra a partir dela.
A imagem inicial é deliberadamente perturbadora: uma tigresa “toda nua na rua”, visão que combina o animal selvagem, a nudez e o espaço urbano numa sequência impossível de domesticar pela lógica. A canção encadeia outras tigresas (Zezé Motta, Sônia Braga, de quem Caetano disse ter pegado os “olhos cor-de-mel”) até a confissão final, atribuída a Caetano em entrevistas posteriores: “a Tigresa sou eu”. A formulação é flaubertiana (“Madame Bovary, c’est moi”), e Caetano cita-a explicitamente como referência.
A canção foi regravada por Gal Costa em Caras e Bocas (1977), versão que se tornou a 47ª música mais tocada no rádio brasileiro daquele ano. Bicho contém também “Não Identificado”, “Odara” e “Um Índio” (esta última em outro disco), trio que junto com “Tigresa” define a fase africanizada de Caetano no fim dos anos 1970.
