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❝ Citação

É que Narciso acha feio o que não é espelho

A canção foi composta em 1978 a pedido do produtor Roberto de Oliveira, da TV Bandeirantes, que tinha encomendado a Caetano um depoimento para um programa sobre São Paulo. Caetano transformou o depoimento em letra e gravou-a no álbum Muito (Dentro da Estrela Azulada). A abertura (“alguma coisa acontece no meu coração / que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”) fixou um dos refrões mais citados sobre a cidade.

O verso “é que Narciso acha feio o que não é espelho” funciona como autocrítica do eu lírico. Caetano descreve o impacto inicial da chegada do baiano em São Paulo (a “dura poesia concreta” das esquinas, a “feiura” que ele afirmou enxergar antes de aprender a ler a cidade) e atribui essa rejeição inicial ao reflexo narcísico. O próprio verso é a chave hermenêutica que desfaz a primeira impressão: o que parece feio é o que não devolve a imagem do Recôncavo Baiano.

A canção segue elogiando o “povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas” e termina saudando a São Paulo dos “novos baianos” e de Rita Lee, figura que Caetano define como “a mais completa tradução” da cidade. A formulação do verso ficou tão consagrada que migra como aforismo independente em discussões sobre xenofobia e provincianismo.