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Enquanto os homens exercem seus podres poderes

A canção abre o álbum Velô (1984), gravado no auge do movimento Diretas Já e quatro meses antes do colégio eleitoral que elegeria Tancredo Neves. O verso-refrão “enquanto os homens exercem seus podres poderes” funciona como anáfora: repete-se a cada estrofe e introduz quadro novo do país que se vê do lado de fora dos gabinetes.

A paronomásia “podres poderes” comprime a tese política da canção. O som das duas palavras é quase igual, mas a inversão das vogais (ó-é / é-ó) cria a oposição. O poder, no Brasil descrito pela canção, está literalmente apodrecido: ilegítimo e em decomposição material. Os versos seguintes catalogam imagens cotidianas que essa decomposição produz: motos avançando o sinal, fome, raiva, sede tornadas “gestos naturais”. A naturalização da violência social é o efeito do exercício prolongado dos podres poderes.

A canção contém o verso “índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes / fazem o carnaval”, catalogação que prefigura o vocabulário identitário das décadas seguintes e marca, no repertório de Caetano, a transição do tropicalismo dos anos 1960 para a sensibilidade pós-Diretas. Foi composta em 1983 e gravada antes do fim formal da ditadura.