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O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara

A canção abre o álbum Estrangeiro (1989), gravado em grande parte em Nova York com produção de Arto Lindsay e Peter Scherer e participação de Naná Vasconcelos, Carlinhos Brown, Bill Frisell e Marc Ribot. Foi o primeiro disco de Caetano voltado deliberadamente para o público internacional, e a letra catalogou as visões estrangeiras do Rio de Janeiro como matéria.

Os versos abrem com três visitantes ilustres: Paul Gauguin “amou a luz” da Baía de Guanabara, Cole Porter “adorou as luzes na noite dela”, e Lévi-Strauss a descreveu como uma “boca banguela”. A acumulação não é casual. Cada visão é parcial e cada uma é correta dentro do recorte do estrangeiro que olha. A letra prossegue para confessar que o eu lírico — também ele um estrangeiro, agora morando em Nova York — vê o Rio através de outros olhares antes de poder vê-lo de volta como seu.

A escolha de Lévi-Strauss não é decorativa. A frase “boca banguela” aparece em Tristes Trópicos (1955) na descrição que o antropólogo francês faz da entrada da baía vista do navio. Caetano transforma o trecho em material de canção e expõe o procedimento — o estrangeiro escreve o lugar, e o nativo aprende a se ver pelo escrito do estrangeiro.