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Narciso em Férias

“Narciso em Férias” é o título do capítulo da Parte 3 de Verdade Tropical (1997), nas páginas 349-404 da edição comemorativa de 2017, e foi republicado em 2020 como livro autônomo pela Companhia das Letras, após o lançamento do documentário homônimo de Renato Terra e Ricardo Calil. Caetano e Gilberto Gil foram retirados de seus apartamentos no centro de São Paulo na manhã de 27 de dezembro de 1968 — duas semanas depois do AI-5 — e levados de caminhão para o Rio de Janeiro.

Caetano descreveu a experiência como impacto múltiplo: político, psicológico, artístico. Os 54 dias em celas, primeiro no CCMar (Centro de Comunicações da Marinha) e depois em outras unidades, foram narrados em detalhe minucioso, incluindo o episódio em que ele esperou levar um tiro depois de uma ordem militar (“fiquei me mantendo de pé com uma dignidade digna que não correspondia à fraqueza que só eu sabia estar sentindo”) e descobriu, em seguida, que era para ir ao barbeiro. A edição de 2020 incluiu documentos do processo militar tornados acessíveis ao Arquivo Nacional apenas em 2018, cinquenta anos depois.

O título “Narciso em Férias” funciona em dois registros. O Narciso é o sujeito voltado para si: o eu lírico, o cantor, o homem em conflito com a própria imagem. “Em férias” inverte ironicamente o sentido da prisão: a cela é apresentada como suspensão forçada do regime narcísico habitual, exposição compulsória ao outro. Caetano sairia em fevereiro de 1969 sob ordem de seguir para Salvador e seguiria depois para o exílio em Londres em julho de 1969.