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Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

A canção fecha o álbum Velô (1984) e usa estrutura próxima ao samba-rap, com participação vocal de Elza Soares. A letra alterna passagens cantadas e faladas e dialoga abertamente com a história da literatura em língua portuguesa (Camões, Fernando Pessoa, Caymmi, Mangueira) para argumentar que o vínculo entre os falantes da língua é mais fundamental que a nacionalidade.

A abertura “gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões” tem dupla carga: “língua” no sentido de idioma e “língua” no sentido anatômico. O verbo “roçar” carrega o duplo sentido a um limite quase erótico. Caetano transforma a relação entre português brasileiro e português europeu em encontro corporal, contornando a hierarquia colonial usual entre matriz e variante. Mais adiante na canção, ele cita “minha pátria é a língua portuguesa”, frase de Bernardo Soares que Caetano paraframa em Verdade Tropical, e propõe substituir “pátria” por “mátria” e “frátria”.

Caetano dedica passagem específica de Verdade Tropical a sua relação com a língua portuguesa, e na introdução à edição comemorativa de 2017 lembra ter feito essa paráfrase pessoana “no nosso primeiro samba-rap”. A canção “Língua” é a referência interna do livro a essa formulação.