'Drão' não é composição de Caetano Veloso — é de Gilberto Gil
A canção “Drão” — cujos versos centrais “o amor da gente é como um grão / uma semente de ilusão / tem que morrer pra germinar” tornaram-se reverenciados como exemplo de canção popular de divórcio — é composição de Gilberto Gil, gravada por ele no álbum Um Banda Um (WEA, 1982). Ocasionalmente é atribuída a Caetano Veloso em postagens de redes sociais e compilações apócrifas, sobretudo quando a frase circula em separado da gravação.
A peça é endereçada a Sandra Gadelha, primeira esposa de Gil, com quem ele se casou em 1969 e de quem se separou no início dos anos 1980. “Drão” é o apelido que Maria Bethânia deu a Sandra na adolescência baiana. A confusão de autoria com Caetano deriva de fatores conhecidos: a proximidade biográfica e estética entre Gil e Caetano (ambos baianos, presos juntos em 1968, exilados juntos em Londres), a frequência com que aparecem em duo (Tropicália 2, 1993, por exemplo) e a generalização do “tropicalismo” como autoria coletiva difusa.
Gil também é autor de “Drão” no sentido performático — nunca deu créditos ambíguos, e a canção sempre apareceu em discos próprios. A migração da autoria para Caetano é caso típico em que a frase é lembrada antes da fonte, e o nome mais cantado do par é escolhido para ancorar a citação.
