Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é
Caetano compôs “Dom de Iludir” em 1977 a pedido de Maria Creuza, que registrou a primeira gravação no álbum Meia Noite daquele ano. A peça é, segundo o próprio Caetano, resposta ponto-a-ponto a “Pra Que Mentir?” (1937) de Noel Rosa e Vadico, samba em que o eu lírico recrimina a parceira pela mentira. Caetano inverte a moral da canção de Noel: a mentira no amor passa a ser dom, algo que se oferece sem reciprocidade exigida.
O verso “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” é articulação de princípio. A “delícia” é palavra que Caetano usa pouco e com economia; aqui a aproxima da “dor” sem hierarquia. Em cada identidade as duas dimensões coexistem em equação privada. “Cada um sabe” é o limite do conhecimento alheio: a equação interna entre dor e delícia escapa ao julgamento de fora.
A canção foi gravada por Caetano primeiro em Totalmente Demais (1986), o disco ao vivo do projeto Luz do Solo no Copacabana Palace, e depois em Noites do Norte Ao Vivo (2001). A versão de Maria Creuza permanece a primeira gravação registrada da peça.
