Meu coração vagabundo / Quer guardar o mundo / Em mim
A canção saiu em Domingo (1967), o disco que Caetano gravou com Gal Costa antes da virada tropicalista. O álbum tem fotografia de capa em preto e branco, sonoridade ainda devedora da bossa nova, e marca o último momento em que Caetano apareceu em estúdio antes de “Alegria, Alegria” mudar de direção. A canção foi composta por Caetano sozinho.
A formulação central inverte o sentido usual de “guardar”. O coração vagabundo do título não quer ser guardado — quer ele próprio guardar o mundo, isto é, abrigá-lo dentro. A ambiguidade é deliberada: “guardar” pode significar conservar, proteger, vigiar, esconder. O eu lírico se oferece como receptáculo do mundo inteiro num gesto que beira o impossível e justamente por isso vira programa estético. Os versos anteriores — “meu coração não se cansa / de ter esperança / de um dia ser tudo o que quer” — preparam essa abertura sem concessão.
A canção foi regravada por Caetano em diversos shows ao longo das décadas seguintes e tornou-se uma das peças que o autor recupera quando quer marcar continuidade entre o jovem de 25 anos pré-Tropicália e o intérprete posterior. A versão original em Domingo permanece a referência canônica.
