Caminhando contra o vento / Sem lenço e sem documento
A canção foi inscrita no III Festival da Música Popular Brasileira, realizado em outubro de 1967 pela TV Record em São Paulo, e ficou em quarto lugar. Caetano apresentou-a acompanhado pela banda argentina Beat Boys, então em temporada nos bares de São Paulo, num gesto deliberado de incorporar guitarras elétricas e fraseado de pop internacional à canção brasileira de festival. O título tomou emprestada a saudação que Wilson Simonal e Chacrinha já faziam circular nos programas de auditório.
Os versos de abertura encadeiam um andar sem rumo no calor de quase verão. “Caminhando contra o vento / sem lenço e sem documento” estabelece o eu lírico como sujeito desprotegido — sem o lenço de bolso da etiqueta antiga, sem a cédula que o Estado exige — e movido pela contracorrente. A canção depois cita Coca-Cola, banca de revistas, o sol, a bomba — colagem urbana que, ao lado de “Domingo no Parque” de Gilberto Gil no mesmo festival, é tomada como certidão de nascimento do tropicalismo musical.
Caetano voltaria à expressão décadas depois, em Verdade Tropical (1997), para discutir a questão de que a Coca-Cola da letra “não foi a primeira da música popular brasileira”: Luiz Gonzaga e Zé Dantas já haviam mencionado o refrigerante em “Siri Jogando Bola”.
