O tempo é a substância de que sou feito
O ensaio é a tentativa mais sustentada de Borges de argumentar contra a realidade do tempo. Constrói duas versões do argumento — uma seguindo Berkeley e Hume, outra seguindo Schopenhauer — e mostra que se cada estado mental é completo em si, instantes idênticos em momentos cronológicos distintos seriam o mesmo instante. A consequência seria a abolição da sequência temporal.
O fechamento abandona o argumento. “And yet, and yet… Negar la sucesión temporal, negar el yo, negar el universo astronómico, son desesperaciones aparentes y consuelos secretos.” A frase introduz a admissão final: “El tiempo es la sustancia de que estoy hecho. El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río; es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre; es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego.”
A passagem retoma três imagens da tradição. O rio é heraclitiano. O tigre vem do Vidagdha-Madhava hindu (citado por Borges em outros lugares) e da imagem que ele próprio explora no poema El otro tigre. O fogo combina Heráclito com a imagem joanina do espírito. O fechamento da frase traz a única primeira pessoa que assume o argumento como pessoal e não dialético: “El mundo, desgraciadamente, es real; yo, desgraciadamente, soy Borges.”
