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❝ Citação

Compreendeu que ele também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo

O conto descreve um mago que chega às ruínas de um templo circular dedicado ao deus do fogo, com o propósito explícito de “soñar un hombre: quería soñarlo con integridad minuciosa e imponerlo a la realidad.” Após anos de prática onírica, o sonho se conclui: o homem é sonhado órgão por órgão, ensinado, enviado a outro templo rio acima, com a única proteção de que o fogo não o queime — pois apenas o fogo poderia revelar sua natureza inexistente.

Ao final, o templo do mago pega fogo. Ele caminha em direção às chamas como descida ao próprio fim, mas não se queima: “Con alivio, con humillación, con terror, comprendió que él también era una apariencia, que otro estaba soñándolo.” O regresso é infinito — o mago é sonhado por um sonhador anterior, que por sua vez é sonhado, e assim adiante. A frase fecha o conto sem indicar onde a cadeia começa.

A solução borgiana inverte o problema cartesiano da certeza. Descartes salva a existência do eu pela operação de duvidar; Borges devolve a dúvida ao próprio eu. A imagem aparece em outras formas no resto da obra — o sonho de Coleridge sobre Kubla Khan, em Otras inquisiciones, e a discussão sobre o sonho do rei chinês em El Hacedor. A linhagem hindu do conto está marcada pelas referências aos upanishads no parágrafo de abertura, que Borges leu na tradução de Paul Deussen.