Não queria compor outro Quixote — o que é fácil — mas o Quixote
O conto se apresenta como ensaio crítico póstumo sobre o francês Pierre Menard, autor de uma obra “subterránea, la interminablemente heroica, la impar”. A obra consiste em alguns capítulos do Don Quixote de Cervantes, não como cópia ou tradução, mas como reescrita literal alcançada por meio diferente. “No quería componer otro Quijote —lo cual es fácil— sino el Quijote.” O método rejeitado é declarar-se Cervantes; o método adotado é “continuar siendo Pierre Menard y llegar al Quijote a través de las experiencias de Pierre Menard”.
A glosa borgiana compara duas passagens textualmente idênticas, uma de Cervantes (1605), outra de Menard (séc. XX). “La verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo porvenir.” No século XVII, escrita por Cervantes, a frase é elogio retórico convencional. No século XX, escrita por Menard, é tese pragmatista sobre a história. As palavras são as mesmas; o sentido, segundo Borges, não.
O conto fecha enunciando o método que Menard teria inaugurado: “Ha enriquecido mediante una técnica nueva el arte de la lectura: la técnica del anacronismo deliberado y de las atribuciones erróneas.” A pista metodológica está dada: ler Homero como se fosse de Joyce, ler a Imitação de Cristo como se fosse de Céline. O conto antecipou em décadas a discussão pós-estruturalista sobre morte do autor, intencionalidade e contexto de recepção.
