Pensar, analisar, inventar não são atos anômalos: são a respiração normal da inteligência
A frase aparece como observação do narrador-crítico durante a defesa de Menard contra os que veriam excentricidade em sua tarefa. “Pensar, analizar, inventar (me escribió también) no son actos anómalos, son la normal respiración de la inteligencia.” A formulação é atribuída a uma carta de Menard reproduzida pelo narrador.
A operação retórica é dupla. Por um lado, o narrador defende Menard contra a acusação de loucura — reescrever o Quixote palavra por palavra é, para Menard, exercício ordinário de uma faculdade ordinária. Por outro lado, a frase desfaz a aura romântica que cerca a inteligência criadora. Pensar não é mais nobre que respirar; é simplesmente o que a inteligência faz quando está viva.
A frase contrasta com a tradição que faz da inteligência atributo raro e da invenção dom excepcional. Borges, em vários ensaios, desconfiou dessa hierarquização — em Las versiones homéricas, em Otras inquisiciones, ele argumenta que a tradução é também invenção, e que a leitura atenta é trabalho da mesma natureza que a escrita original. A democratização borgeana da função intelectual está cifrada nessa frase: a respiração não é privilégio.
