Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca
O Poema de los dones abre a coleção El Hacedor (1960) e é resposta de Borges à sua nomeação como diretor da Biblioteca Nacional argentina em 1955, no momento em que sua cegueira hereditária se completava. O poema enuncia a ironia divina pela qual ele recebe simultaneamente “los libros y la noche” (os livros e a noite) e atribui essa coincidência a Deus “con magnífica ironía”.
O texto literal: “Yo, que me figuraba el Paraíso / bajo la especie de una biblioteca”. A forma circulante em PT-BR (“Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca”) é tradução simplificada da estrofe. O verbo figurarse carrega imaginação visual ativa, não simples suposição. Bajo la especie de é fórmula filosófica antiga (Spinoza usa sub specie aeternitatis) que indica modo de aparição.
O poema termina com o paralelo entre Borges e Paul Groussac, diretor anterior da biblioteca também cego, sugerindo que ambos os homens cegos sonharam com livros que não podiam mais ler. A formulação inverte a tradição cristã do paraíso visual: aqui o paraíso é leitura, e a punição que o acompanha é exatamente a impossibilidade de ler.
