O original é infiel à tradução
O ensaio de Borges discute a história editorial peculiar de Vathek (1786), conto oriental de William Beckford. Beckford escreveu o livro em francês; um amigo o traduziu para inglês antes que o original viesse a público; a versão inglesa apareceu primeiro, em 1786, e ganhou status canônico. O original francês foi publicado depois, em 1787, e por anos circulou como retradução do inglês.
Borges fecha sua resenha com a frase: “El original es infiel a la traducción.” A inversão é precisa. A versão inglesa, mais firme e mais cadenciada, deve seu prestígio à pretensão de ser tradução; o original francês, mais hesitante, parece versão derivada que tenta alcançar a versão prestigiada. A relação cronológica entre os dois textos foi suplantada pela relação avaliativa.
A frase pertence à mesma família de paradoxos que Borges desenvolve em Pierre Menard, e antecipa parte do argumento desconstrucionista sobre suplemento e origem. Walter Benjamin, em Die Aufgabe des Übersetzers (1923), já havia argumentado que a tradução pode revelar potencialidades latentes que o original não realiza. Borges leva o ponto adiante: a tradução, neste caso, define retroativamente o que conta como falha do original.
