Não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural
O ensaio comenta o projeto de John Wilkins (1614-1672), bispo anglicano e fundador da Royal Society, que tentou construir uma língua analítica universal em que cada letra de cada palavra carregaria sentido lógico. Borges expõe o sistema, mostra suas inconsistências e generaliza: “notoriamente no hay clasificación del universo que no sea arbitraria y conjetural. La razón es muy simple: no sabemos qué cosa es el universo.”
Para ilustrar a arbitrariedade, Borges introduz a passagem que se tornou famosa fora do contexto. Cita uma suposta enciclopédia chinesa, Empório celestial de conhecimentos benévolos, em que os animais se dividem em catorze categorias incomensuráveis: “a) pertenecientes al Emperador, b) embalsamados, c) amaestrados, d) lechones, e) sirenas, f) fabulosos, g) perros sueltos, h) incluidos en esta clasificación…” A enciclopédia é invenção de Borges, mas funciona como exemplo extremo do princípio.
Foucault abre Les mots et les choses (1966) com essa enumeração e atribui a ela o ímpeto inicial de seu próprio projeto: “Ce livre a son lieu de naissance dans un texte de Borges.” O texto borgiano serve a Foucault como evidência de que toda taxonomia repousa em um episteme historicamente determinado, não em divisões naturais do real. A tese de Borges é mais modesta — admite que toda classificação serve a alguma utilidade — mas o argumento básico está dado.
