A história universal é a história de algumas metáforas
O ensaio segue a história de uma única metáfora, a esfera infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma, desde uma atribuição apócrifa a Hermes Trismegisto, passando por Alano de Lille (séc. XII), Nicolau de Cusa (séc. XV), Giordano Bruno e finalmente Pascal, que a usa em Pensées fragmento 72 com uma diferença crucial.
A frase abre o ensaio: “Quizá la historia universal es la historia de unas cuantas metáforas.” A tese é deliberadamente modesta. Não diz que a história é redutível a metáforas, mas que sua espinha conceitual repousa sobre um número pequeno delas. Borges enumera em outros ensaios algumas dessas metáforas: o sonho como vida, a vida como sonho, o livro do mundo, o mundo como teatro.
A descoberta filológica de Borges no ensaio é o desvio de Pascal. Onde Bruno usa a esfera infinita como exaltação cósmica (o universo é Deus, e a infinitude é boa-nova), Pascal a usa como vertigem: “le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie.” A mesma metáfora suporta exuberância renascentista e angústia barroca. Borges conclui que talvez não inventemos imagens novas; apenas revisemos a entonação das antigas. O argumento ressoa com o que Hans Blumenberg chamaria Metaphorologie duas décadas depois.
