Esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto
O epílogo de El Hacedor tem dois parágrafos. O primeiro registra surpresa do autor com o livro recém-completado: “Pocas cosas me han ocurrido y muchas he leído. Mejor dicho: pocas cosas me han ocurrido más dignas de memoria que el pensamiento de Schopenhauer o la música verbal de Inglaterra.” O segundo parágrafo enuncia o aforismo final do livro.
“Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largo de los años puebla un espacio con imágenes de provincias, de reinos, de montañas, de bahías, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas. Poco antes de morir, descubre que ese paciente laberinto de líneas traza la imagen de su cara.” A construção é parábola; o desenho do mundo se revela auto-retrato.
A imagem condensa um dos motivos centrais de Borges. O homem que tenta descrever o universo termina descrevendo a si mesmo, não por egoísmo, mas porque a tessitura cognitiva por meio da qual ele apreende o mundo é a mesma que constitui sua identidade. A frase resgata uma versão otimizada da tese de Berkeley sobre a inseparabilidade de percepção e percepiente. Aplica-se ao próprio livro que ela fecha — El Hacedor é a tentativa de Borges de reunir uma vida inteira de leituras e a confissão de que toda essa erudição configura, no final, um rosto reconhecível.
