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❝ Citação

Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair

Ireneo Funes, depois de cair de cavalo aos dezenove anos, ganha memória absoluta: percebe e retém cada detalhe de cada instante. O narrador descreve o resultado dessa hipertrofia: “Era casi incapaz de ideas generales, platónicas. No sólo le costaba comprender que el símbolo genérico perro abarcara tantos individuos dispares de diversos tamaños y diversa forma; le molestaba que el perro de las tres y catorce (visto de perfil) tuviera el mismo nombre que el perro de las tres y cuarto (visto de frente).”

O fechamento da glosa é a frase: “Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer.” O cogito borgeano inverte a operação cartesiana. Em Descartes, pensar é distinguir clara e distintamente. Em Borges, pensar é apagar o que individua. Funes não pensa porque não esquece: a memória total satura cada percepção, impedindo que ela se torne caso de uma classe.

A frase tem ressonância filosófica direta com o problema dos universais e com a leitura nominalista do conhecimento. William James, em The Principles of Psychology (1890), já argumentara que o pensamento depende da seleção; Borges leva o argumento ao limite ficcional. Uma reescrita possível do conto, no século XXI, descreveria os sistemas de aprendizado de máquina que falham por overfitting — Funes é um classificador que decorou o conjunto de treino.