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❝ Citação

Os espelhos e a cópula são abomináveis

A frase aparece logo no início do conto. Borges está jantando com Adolfo Bioy Casares quando este recorda uma fórmula de um heresiarca de Uqbar registrada em uma enciclopédia: “Los espejos y la cópula son abominables, porque multiplican el número de los hombres.” A frase serve de pivô narrativo — a busca por essa enciclopédia é o que abre o caminho para a descoberta do mundo fictício de Tlön.

A proposição condensa duas teses gnósticas antigas: o espelho como duplicação ilegítima do mundo material, e a procriação como prolongamento do erro de existir. As duas operam por idêntico mecanismo — multiplicar imagens de homens em vez de purgá-las. O heresiarca de Uqbar funciona, no conto, como um marcionita ou cataro deslocado para uma geografia inexistente, o que torna a heresia simultaneamente plausível e imune a refutação histórica.

O efeito retórico do conto depende do tom enciclopédico. Borges introduz a frase como citação encontrada num verbete, não como tese própria, e deixa o leitor com o efeito persistente de uma sentença que parece já ter circulado por séculos. Essa é a operação típica de Tlön: invenções que adquirem realidade pela mera atestação textual.