Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

Escrever não é mais que um sonho dirigido

A frase aparece no prólogo da coletânea, escrito quando Borges tinha mais de setenta anos e voltava ao conto realista após décadas dedicadas a poesia e ensaio. “No sé si la pluma a quien dictamos. La escritura no es más que un sueño dirigido.” O prólogo discute o procedimento de escrita do próprio Borges nessa fase: contos curtos, sintaxe lacônica, redução do ornamento metafísico que marcara Ficciones e El Aleph.

A definição articula dois polos. O sonho é involuntário, escapa ao controle, e fornece a matéria. A direção é o que o escritor exerce: escolha de palavra, corte de adjetivo, ritmo da frase. A escrita é o sonho disciplinado, mas o disciplinador depende inteiramente do material onírico para ter o que disciplinar. A formulação retoma uma ideia que Borges atribui a Coleridge em Otras inquisiciones, a tese de que toda boa literatura é registro de algo recebido em estado próximo do sonho.

O contraste com a auto-imagem dos modernistas é deliberado. Joyce e Pound construíam catedrais conceituais e exigiam leitor erudito. Borges, no prólogo de Brodie, recusa esse projeto: o conto deve ser um sonho que possa ser narrado a um amigo. A poética é simultaneamente humilde, com Borges declarando estilo médio e modelos do realismo do século XIX, e ainda assim sustenta a tese forte sobre origem onírica do material literário.