Hemos de buscar um terceiro tigre
O poema começa com Borges escrevendo na Biblioteca Nacional e visualizando um tigre — “Pienso en un tigre.” A primeira estrofe descreve o animal vívido e pontual, “que cumple su rutina de amor, de ocio y de muerte / a orillas del Ganges.” A segunda estrofe interrompe esse animal: o tigre que aparece no poema “es un sistema de palabras humanas y no el tigre vertebrado”. Nomear o tigre o transforma em literatura.
A terceira estrofe propõe a busca do otro tigre, o que estaria “fuera del verso”. Mas a tentativa fracassa imediatamente: “y sé, sin embargo, que algo / me impone esta aventura indefinida, insensata y antigua, / y persevero / en buscar por el tiempo de la tarde / el otro tigre, el que no está en el verso.” O tigre vital permanece inalcançável pela linguagem.
O poema fecha enunciando o regresso: “A un tercer tigre buscaremos. Éste / será como los otros una forma / de mi sueño, un sistema de palabras / humanas, y no el tigre vertebral / que, más allá de las mitologías, / pisa la tierra.” A perseguição é infinita por construção. Cada novo tigre, ao ser dito, vira tigre dito, e a busca recomeça. A imagem dialoga com o problema platônico da relação entre linguagem e particular, e antecipa a discussão de Maurice Blanchot sobre o nome que mata aquilo que nomeia em La part du feu (1949).
