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❝ Citação

Não sei qual dos dois escreve esta página

Borges y yo tem cerca de uma página. Abre com “Al otro, a Borges, es a quien le ocurren las cosas” e descreve a relação entre o narrador (que assina) e o personagem público chamado Borges (que recebe correspondência, sai em antologias, dá entrevistas). A separação é gradual: o narrador admite que algumas páginas conseguem se salvar, mas que essas páginas tampouco lhe pertencem; pertencem à linguagem ou à tradição.

A frase intermediária dá a tonalidade: “Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.” O texto inteiro descreve uma cessão progressiva. O Borges público herda os gostos do narrador, transcritos pelo próprio: “los relojes de arena, los mapas, la tipografía del siglo XVII, las etimologías, el sabor del café y la prosa de Stevenson”. Os mesmos gostos viram, no outro, adereços de ator.

O texto fecha em uma sentença que invalida a moldura do próprio texto: “No sé cuál de los dos escribe esta página.” A frase é tecnicamente impossível dentro da economia narrativa que o texto estabeleceu. Se há um eu que duvida e um outro que age, a dúvida é do eu, e portanto o eu é quem escreve. Mas a frase recusa fechar a operação. Comparar com a estrutura do cogito reflexivo de Fichte, ou com a observação de Pessoa em Tabacaria (“Quem é que me sente pensar isto que estou pensando?”), esclarece o procedimento.