Olhar o rio feito de tempo e água
O poema abre com a sequência: “Mirar el río hecho de tiempo y agua / y recordar que el tiempo es otro río, / saber que nos perdemos como el río / y que los rostros pasan como el agua.” A imagem é declaradamente herdada de Heráclito (fragmento DK 22 B12), que Borges cita em vários lugares de sua obra. A diferença está no uso: aqui o rio funciona como programa para a poesia, não como exemplo cosmológico.
A glosa central do poema enuncia a tese estética: “convertir el ultraje de los años / en una música, un rumor y un símbolo.” A poesia não nega o tempo nem o sublima; converte sua corrosão em forma audível. O poema continua com a imagem do espelho — “a veces en las tardes una cara / nos mira desde el fondo de un espejo; / el arte debe ser como ese espejo / que nos revela nuestra propia cara” — e termina com Ulisses retornando a Ítaca.
A estrutura de quatro estrofes hendecassílabas de Borges faz contraponto à doutrina que enuncia: o poema sobre a fluidez do tempo está formalmente ancorado em uma das métricas mais estáveis do espanhol. Essa tensão entre conteúdo heraclitiano e forma parmenidiana atravessa quase toda a poesia tardia de Borges.
