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❝ Citação

Um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos

O Aleph aparece descrito por Carlos Argentino Daneri, no porão da casa da rua Garay, como “uno de los puntos del espacio que contiene todos los puntos.” O nome remete à letra hebraica álef, primeira do alfabeto, e ao aleph-zero da teoria de conjuntos — Cantor a usou para denotar a cardinalidade do infinito enumerável. Borges combina a referência cabalística com a matemática transfinita.

A visão do Aleph ocupa a passagem central do conto, e Borges enuncia primeiro o problema que ela levanta: “el problema central es irresoluble: la enumeración, siquiera parcial, de un conjunto infinito.” O texto que segue é uma anáfora — “vi el populoso mar, vi el alba y la tarde, vi las muchedumbres de América…” — uma lista que expõe o limite do recurso linear da prosa. A simultaneidade do Aleph não pode ser dita; pode apenas ser sugerida pela exaustão da listagem.

O conto fecha com a fragilidade da memória: “Nuestra mente es porosa para el olvido; yo mismo estoy falseando y perdiendo, bajo la trágica erosión de los años, los rasgos de Beatriz.” A última perda do narrador não é o Aleph, mas a face da mulher que o levou ao porão. O infinito é menos terrível que o esquecimento de uma pessoa específica.