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Nossa mente é porosa para o esquecimento

O conto fecha com o narrador (chamado Borges) refletindo sobre o que aconteceu meses depois da visão. “Nuestra mente es porosa para el olvido; yo mismo estoy falseando y perdiendo, bajo la trágica erosión de los años, los rasgos de Beatriz.” A frase é um movimento estranho dentro da economia do conto, que tinha como objeto declarado o Aleph — o ponto que contém todos os pontos do espaço.

A operação que Borges executa no fechamento desloca o foco do conto. Beatriz Viterbo, a mulher amada e morta cuja casa abriga o Aleph, foi mencionada no início como pretexto da visita do narrador. O conto inteiro pareceu interessar-se mais pelo objeto metafísico que pela mulher. No último parágrafo, a hierarquia se inverte: o que persiste como perda real é o rosto, não a topologia.

A frase ressoa com uma das teses centrais da obra de Borges sobre a memória. “Pensar es olvidar diferencias” dizia o narrador de Funes el memorioso — esquecer é condição de pensamento. Aqui o esquecimento muda de função: não habilita a generalização, falsifica a fidelidade emocional. A porosidade da mente, condição de pensar, é também causa do luto incompleto. O Aleph mostrou tudo; nada do que o Aleph mostrou compensa a erosão de uma única face.