Bebê Vermelho 赤子
赤 (chì) é o vermelho do sangue do parto. 子 (zǐ) é a criança. 赤子 (chìzǐ) é a imagem do recém-nascido coberto pelo sangue do nascimento, no instante anterior a tudo o que vai vir. A figura simboliza a pureza original: o estado anterior ao desejo, anterior à camada que o desejo cria.
Laozi#
A primeira aparição registrada está no Tao Te Ching, cap. 55:
含德之厚,比於赤子
Hán dé zhī hòu, bǐ yú chìzǐ
Aquele que contém a virtude profunda é comparável ao bebê recém-nascido.
O capítulo segue descrevendo o que o bebê vermelho não tem: medo de inseto venenoso, susto de besta selvagem, ataque de ave de rapina. Os ossos são frágeis, os tendões são moles, e ainda assim o aperto da mão é firme. Não conhece a união entre macho e fêmea, e ainda assim seu sexo se ergue. Tudo isso porque sua essência (精, jīng) está completa.
A virtude profunda do sábio taoista, segundo Laozi, é o retorno a esse estado de coerência interna sem cisão. O bebê não age contra si mesmo porque ainda não há nele um “si mesmo” dividido em camadas.
Mêncio#
Algumas gerações depois, na tradição confuciana, Mêncio retoma a imagem em outro registro (Mengzi 4B.12):
大人者,不失其赤子之心者也
Dà rén zhě, bù shī qí chìzǐ zhī xīn zhě yě
O grande homem é aquele que não perdeu o coração de bebê recém-nascido.
Para Laozi, o caminho é o retorno ao estado pré-cultural. Mêncio aponta outro: o coração de bebê pode atravessar a maturidade adulta e o exercício do papel social sem se perder.
Chan posterior#
Quando o budismo indiano se aclimata na China e dá origem ao Chan (séc. VI-VII), absorve uma quantidade enorme de vocabulário chinês prévio. O bebê vermelho é uma das figuras herdadas. Aparece em textos Chan posteriores como sinônimo da natureza-Buda original, ainda não obstruída por discriminações, apegos, “dez mil coisas”.
Por isso é comum encontrar referências ao 赤子 dentro do arcabouço Zen. A leitura é legítima por absorção, mas a fonte primária está antes, no pensamento clássico chinês.
