Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

Aretê: adequação ao cosmos

Aretê costuma ser traduzido por “excelência”. A tradução não está errada, mas escorrega para um sentido moderno que trai o grego. Hoje, excelência evoca superação, ranking, ápice de performance. Aretê grega é outra coisa.

A palavra se aplica a qualquer coisa. Um cavalo tem aretê. Uma faca tem aretê. Uma chaminé, um olho, um bom ferreiro. Cada coisa tem a sua, e cada uma é diferente. A aretê de um olho é enxergar bem. A de uma faca é cortar. Não há aretê genérica. Só há aretê em relação a uma função.

Essa função os gregos chamavam ergon. É o que o livro I da Ética a Nicômaco faz explícito: cada coisa tem um ergon, e sua aretê é o estado que permite cumprir esse ergon com acerto. Para Aristóteles, o ergon humano envolve a atividade racional da alma. A aretê humana, então, é a disposição estável que permite exercer essa atividade bem.

O cosmos como moldura
#

Aretê não flutua sozinha. Se apoia em cosmos. E cosmos, em grego, não é só “o universo”. É ordem, arranjo, composição. Uma complexidade organizada.

No cosmos grego, cada coisa tem lugar e função. O cidadão, o artesão, a mãe, o soberano, o escravo, o cavalo, a casa. A ordem não é democrática no sentido moderno. É hierárquica, datada, específica daquela cultura. Mas a chave é que aretê só faz sentido dentro desse arranjo. Ser excelente é cumprir com precisão o papel que o cosmos designou.

Por isso aretê é mais próximo de adequação do que de superação. Fazer precisamente aquilo que precisa ser feito, nem mais, nem menos. Não é espetáculo. Não é recorde. É encaixe.

Adequação não é conformismo
#

Adequar-se soa a ajustar-se, render-se à norma, ocupar o lugar que mandaram. Não é isso.

Adequação em sentido grego é reconhecer que a pessoa vive dentro de um sistema de relações. Família, ofício, cidade, natureza. A excelência consiste em servir esse sistema do jeito que só ela pode servir. Um corretor de imóveis bom não é o que vende mais. É o que coloca cada pessoa na casa certa. Ele serve ao ergon da profissão, que é a acomodação da pessoa no mundo. Aretê em corretor mora aí.

É rígido? Em um mundo orientado para uma organização (Cosmos) não havia mobilidade real. Por isso práticas Filosóficas (Estóicas) precisam sempre ser adaptadas ao nosso contexto. Não podemos cair no anacronismo de achar que se aplicam ao mundo de hoje como foram propostas.

Por que isso interessa no Kung Fu
#

Si Fu, ao comentar a proposta de Mestre Márcio Lopes sobre Kung Fu como arte da excelência, trouxe exatamente essa acepção grega. Aretê em Kung Fu é cumprir o papel que o sistema pede naquele momento.