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A década perdida da esquerda europeia
Vladimir Bortun revisita a década de 2010, quando SYRIZA, Podemos e Bloco de Esquerda pareciam prestes a romper com o neoliberalismo europeu. Dez anos depois, o neoliberalismo segue no poder, mais autoritário e bélico, e foi a extrema-direita que se consolidou como principal adversária do centro político.
O artigo atribui o fracasso a três escolhas específicas desses partidos: moderação programática, abandono da mobilização de massas em favor das instituições parlamentares, e burocratização interna que reproduziu centralismo sem democracia.
Fichamento#
- SYRIZA, Bloco e Podemos nasceram de tradições comunistas não stalinistas (trotskismo, maoísmo, eurocomunismo, os Indignados) e chegaram perto do poder em 2015: SYRIZA venceu na Grécia, Podemos e Bloco tiveram resultados históricos, Corbyn assumiu o Trabalhista britânico e Sanders revitalizou a social-democracia nos EUA.
- A capitulação do SYRIZA à Troika em julho de 2015, depois de o referendo do Oxi rejeitar a austeridade, marcou a virada. O governo aceitou resgate, cortes e privatizações em vez de mobilizar a base para medidas como controle de capitais e nacionalização de bancos.
- Bloco e Podemos seguiram trajetória parecida ao apoiar governos de centro-esquerda sem alternativa socialista própria. O PSOE capitalizou as reformas do Podemos, e o Bloco perdeu espaço eleitoral para o Chega quando retirou apoio ao governo português em 2022.
- Os três partidos começaram como partidos-movimento, ligados a mobilizações de massa, e se voltaram para a política institucional quando essas mobilizações arrefeceram. A cooperação entre eles em nível europeu se limitou a gestos simbólicos.
- Internamente, os três se burocratizaram para conter dissidência: SYRIZA concentrou poder no topo até eleger um ex-banqueiro do Goldman Sachs como líder; o Podemos centralizou decisões em mecanismos online e se personalizou em torno de Pablo Iglesias.
- Bortun extrai três lições: reforma sem programa de ruptura sistêmica não leva a lugar nenhum, poder político depende de mobilização de massas tanto quanto de eleições, e a fragmentação da esquerda radical hoje supera suas diferenças políticas reais.
- As três chagas da crise da esquerda segundo Wendy Brown chega à mesma crise por outra porta: o colapso do socialismo real que Bortun cita como condição estrutural aparece ali como uma das causas da melancolia de esquerda.
